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Acre é um dos estados com mais alertas ambientais para crianças

    Rio Branco aparece em situação de alta prioridade em ao menos nove dos 14 indicadores do Painel Crianças e Meio Ambiente, plataforma lançada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies. A ferramenta mede a exposição de crianças e adolescentes a riscos ambientais e climáticos nos 5.571 municípios brasileiros, com dados de 2021 a 2025.

    O levantamento classifica cada indicador em três níveis. O nível 3 representa atenção alta e exige ação imediata e priorizada. O nível 2 indica a necessidade de planejamento e adoção progressiva de medidas no curto a médio prazo. O nível 1 aponta baixa prioridade, com recomendação de monitoramento contínuo.

    Com 389 mil habitantes, a capital acreana tem 31,7% da população formada por crianças e adolescentes. O índice coloca Rio Branco entre os 25% dos municípios do país com maior proporção desse público. Segundo o painel, o dado torna ainda mais urgentes as ações voltadas à proteção de meninos e meninas.

    O pior cenário da capital está na infraestrutura ambiental e urbana. A plataforma aponta que 62,64% da população não tem abastecimento adequado de água tratada. Entre crianças e adolescentes, 10,17% vivem sem ligação à rede geral de água, 7,35% não têm esgotamento sanitário adequado, 1,94% não contam com destinação correta do lixo e 0,58% moram em domicílios com paredes precárias. Os cinco indicadores estão no nível 3. A destinação dos resíduos coletados no município é o único item da área com baixa prioridade, sem registro de envio a lixões, vazadouros ou aterros controlados.

    Os eventos climáticos extremos também colocam a cidade em alerta. Rio Branco registrou média de 9,2 ondas de calor por ano no período analisado, além de anomalia de seca acima do padrão esperado para o município. Os dois indicadores estão no nível máximo. As chuvas intensas, com média de 41 eventos por ano, aparecem no nível 2.

    Na qualidade do ar, a densidade de focos de calor chega a 0,38 por quilômetro quadrado, também em nível 3. O painel mostra ainda que a concentração de partículas finas (PM 2,5) superou o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 39,21% dos dias.

    No ambiente escolar, 13,23% das matrículas estão em escolas sem saneamento básico completo, indicador classificado como de alta prioridade. Outros 52,67% dos estudantes frequentam unidades sem qualquer área verde, item no nível 2.

    Acre entre os estados mais vulneráveis

    O estudo identificou 333 municípios em situação de maior vulnerabilidade socioambiental e climática, o que corresponde a 6% das cidades brasileiras. Esses municípios têm alta prioridade em mais de dez dos 14 indicadores, o que configura vulnerabilidade severa e multidimensional. O grupo concentra cidades da região Norte e do Maranhão.

    Os municípios com maior número de indicadores em alta prioridade estão principalmente no Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre os 30 piores resultados do país, 24 ficam na região Norte, quatro no Maranhão e dois em Mato Grosso. De acordo com a nota técnica, muitas dessas cidades têm populações pequenas e economias dependentes de atividades primárias, o que amplia a exposição aos riscos e reduz a capacidade de resposta local.

    Na análise da qualidade do ar, 94% dos municípios da região Norte apresentaram alta prioridade, resultado que o estudo associa provavelmente às queimadas. O Norte também concentra 91% dos municípios de atenção para eventos climáticos extremos, sobretudo chuvas intensas, e 78% das cidades em alta prioridade na infraestrutura ambiental e urbana. Segundo o painel, o problema na região está ligado à dispersão geográfica e à dificuldade de expansão das redes de serviço em territórios de baixa densidade populacional.

    O especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, afirmou à TV Brasil que crianças ficam mais expostas em situações extremas. “Quando se está falando de eventos extremos, crianças dependem de seus cuidadores para tomar as decisões por elas. Elas não necessariamente têm autonomia ou capacidade para reconhecer situações de perigo, em que elas precisam sair de um determinado lugar e ir para outro”, disse.

    Para a representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, a ferramenta permite identificar as diferenças entre os municípios com mais clareza. “Transformar os dados em prioridades ajuda a fortalecer a capacidade dos municípios, entender onde estão os maiores desafios, e como direcionar uma política [pública], um programa, ou um orçamento”, declarou.

    A plataforma permite que gestores municipais e cidadãos consultem o diagnóstico de cada cidade e reúne 50 recomendações para casos de alta prioridade, de intervenções físicas a medidas institucionais. O vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, Pedro de Paula, considera o painel uma ferramenta essencial para orientar ações preventivas. “Um ambiente seguro, saudável e sustentável não é apenas um direito, mas também um elemento essencial para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento integral na infância e na adolescência”, afirmou.

    Por Ac24Horas