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Após terremotos, venezuelanos buscam familiares por conta própria

    Na cidade de Caraballeda, que fica no estado de La Guaira, o mais afetado pelos terremotos que atingiram a Venezuelafamílias vasculham os escombros em busca de parentes. Mais de 2 mil socorristas de cerca de 30 países atuam na região. Com o passar dos dias, o trabalho foca cada vez mais na retirada de corpos, não na busca por sobreviventes.

    O venezuelano Juan Rodriguez, em busca da irmã, Dayana, tenta se fazer entender a um grupo de socorristas estrangeiros, mesmo sem falar a mesma língua.

    “Ela morava no sexto andar deste prédio”, diz. Dez vítimas já foram retiradas dos escombros e, segundo ele, “ela é a única que falta”.

    “Somos nós, as famílias”, afirma Juan, “que estamos fazendo as buscas por conta própria.” Ele descreve uma mobilização improvisada. “Quando encontramos alguém, tentamos retirar quase com as próprias mãos. Quando fica mais difícil, pedimos ajuda, chamamos equipes especializadas. Consegui três máquinas emprestadas.”

    A algumas ruas dali, o mesmo sentimento de desespero se repete. Valeria, uma jovem de Caracas, também pede ajuda aos socorristas. Há dias ela consegue ver o corpo do pai entre os escombros.

    Ele havia se mudado para a cidade litorânea dois dias antes dos terremotos. “Quero dar a ele um enterro digno. Para isso, precisamos salvar o que pudermos. Sei que meu pai não está mais conosco, mas não posso deixá-lo aqui, como se não fosse nada”.

    Valeria enumera o material que comprou para tentar resgatar o corpo do pai: gerador, pás, picaretas, uma esmerilhadeira e discos de corte. Ela insiste que não precisa de muitos recursos.

    “Não precisamos de um esquadrão. Três ou quatro pessoas seriam suficientes, não levaria mais do que meio dia”.

    Poucas chances de encontrar sobreviventes

    Durante sete dias, equipes de resgate de vários países trabalharam sem interrupção. De acordo com o coordenador da ONU na Venezuela, Gianluca Rampolla Del Tindaro, 27 países enviaram cerca de 40 equipes, totalizando “mais de 2 mil pessoas”.

    Com o passar do tempo, no entanto, as operações deixaram de priorizar o resgate de sobreviventes e passaram a se concentrar na retirada de corpos.

    O governo brasileiro já enviou quatro voos humanitários à Venezuela e segue em contato com a presidente interina, Delcy Rodríguez, para avaliar novas necessidades de ajuda.

    “Estamos diante de um prédio de 22 andares que desabou completamente”, explica Christophe Moreau, presidente da ONG francesa Solife, presente no local.

    Segundo ele, os andares estão “comprimidos uns contra os outros, sem nenhum foco de vida”, o que reduz drasticamente as chances de encontrar sobreviventes.

    No meio dos escombros, socorristas utilizam um martelo pneumático para liberar o corpo de uma vítima cujo braço e ombro estão presos sob um bloco de concreto.

    A operação é arriscada. “A pá sustenta o bloco, que pode cair sobre os socorristas”, detalha Laurent, voluntário nas equipes de resgate. “Também temos um sistema de apito: três sinais rápidos indicam evacuação imediata, seja por qualquer movimento detectado ou por um tremor secundário”.

    A chegada das equipes foi dificultada por danos à infraestrutura. Aeroportos afetados, voos cancelados e estradas danificadas atrasaram as operações. “Percorremos muitos quilômetros. Queríamos trabalhar, queríamos fazer algo. Queremos ajudar, mas sabemos que nossa presença aqui será limitada. O objetivo é agir o mais rápido possível”, afirma um socorrista.

    Após a retirada de um corpo por médicos legistas venezuelanos, um novo sinal reacende brevemente a esperança. Um “C” pintado com spray na fachada do edifício indica a possibilidade de haver sobreviventes.

    Desde o duplo terremoto, 6.461 pessoas foram resgatadas, segundo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. Ainda assim, de acordo com a ONU, cerca de 50.000 pessoas seguem desaparecidas. Nesse ritmo, a localização e a recuperação dos corpos podem levar várias semanas.

    Riscos de epidemias e escassez de comida

    Os sobreviventes, que já enfrentam escassez de alimentos e abrigo, correm agora risco de epidemias, alertou a ONU na terça-feira (30).

    Em La Guaira, a região mais atingida, água, alimentos e produtos básicos de higiene, como papel higiênico e sabonete, são distribuídos com ajuda de veículos particulares. Caminhões da organização World Central Kitchen também percorrem as ruas.

    “Sem isso, não sei como conseguiríamos”, diz Nataly Cardona, de 24 anos, que dorme na rua depois de escapar com vida de seu apartamento. Em uma fila sob o sol, Raoni Izaguirre relata a espera.

    “Ficamos o tempo que for necessário, conforme as nossas necessidades”. Ele está hospedado na casa de parentes após perder a própria residência e considera as doações essenciais.

    A ONU alertou para a “escassez generalizada de alimentos” e para o colapso dos “serviços básicos” na região.

    Veterinários e medicamentos

    Profissionais de saúde também se mobilizaram. Médicos e veterinários chegaram ao local para reforçar o atendimento.

    A médica clínica geral Kerlis Artigas, de 30 anos, veio de outro estado com colegas de diferentes especialidades e estudantes. Juntos, criaram a “Brigada Rosa” para distribuir medicamentos e atender os feridos.

    Identificados por braçadeiras cor-de-rosa, os integrantes da brigada visitaram, na terça-feira, um acampamento improvisado instalado em um campo de golfe. O local também abriga unidades médicas móveis com profissionais vindos do México, Itália e El Salvador.

    Hipertensão, crises nervosas, problemas respiratórios, febre e desidratação estão entre as principais urgências relatadas por médicos que atuam no acampamento, onde centenas de pessoas dormem em barracas.

    Jesús Pérez, veterinário de Caracas, levou alimentos, soluções de reidratação e medicamentos para animais de estimação. Ao lado de outros voluntários, ele também criou uma rede de comunicação. “Queremos ajudar a reunir cães e gatos resgatados com seus donos”, explica.

    Por Metrópoles