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BR-364 no Acre: entre o caos e a promessa de recuperação

    A BR-364, principal via terrestre que conecta Rio Branco a Cruzeiro do Sul, enfrenta uma situação crítica. Buracos profundos, trechos destruídos e caminhões quebrados às margens da estrada transformam o percurso de 600 km em uma jornada de até 20 horas, muito além das 8 a 12 horas que seriam razoáveis para o trajeto.

    Motoristas que dependem diariamente da rodovia desabafam sobre as dificuldades enfrentadas. “É muito sofrimento. Essa estrada é muito sofrimento para nós. Tem que ter uma melhoria porque não tem como”, disse o taxista Antônio José, que há 27 anos percorre o trecho. Já Eduardo Freitas destacou o impacto financeiro: “Estraga o carro, quebra tudo. É muito difícil. A gente pede socorro ao poder público.”

    Os relatos refletem uma realidade que se arrasta há anos. Desde 2016, motoristas, empresários e moradores denunciam as dificuldades para percorrer a rodovia, que em períodos críticos pode ter o tempo de viagem estendido para até 36 horas. Caminhoneiros apontam ainda que a precariedade causa acidentes e encarece o transporte de mercadorias, afetando diretamente o custo de vida no estado.

    Ações emergenciais em andamento

    Diante do caos, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) iniciou nos últimos dias uma força-tarefa emergencial para melhorar as condições mínimas de trafegabilidade. Com a redução do período chuvoso, as equipes intensificaram os serviços de tapa-buracos ao longo da rodovia.

    Segundo o superintendente regional do DNIT, Ricardo Araújo, a prioridade imediata é a recuperação emergencial da pista. “O mais importante é cumprir o compromisso de que os meses de fevereiro, março e abril seriam para recuperar e tampar os buracos, para dar mais conforto à população”, afirmou.

    Buracos profundos, trechos destruídos e caminhões quebrados às margens da estrada transformam o percurso de 600 km em uma jornada de até 20 horas. Foto: captada 

    As ações estão concentradas em pontos críticos da rodovia:

    • Rio Branco a Sena Madureira: serviços de tapa-buracos e correção de deslizamentos em fase avançada, com previsão de conclusão ainda em março.
    • Sena Madureira a Manoel Urbano: equipes atuam em áreas com processos erosivos considerados mais perigosos.
    • Manoel Urbano a Tarauacá: aplicação de camada de pedra para melhorar a trafegabilidade, com recapeamento asfáltico previsto para começar ainda em março, alcançando o distrito de Liberdade.
    Obras estruturantes prometidas para maio

    Apesar das reclamações, Ricardo Araújo garante que os recursos para recuperação da via já foram aprovados e que os serviços de tapa-buracos são apenas paliativos. As obras estruturais devem começar em maio, período em que o chamado verão amazônico oferece melhores condições climáticas para intervenções mais robustas.

    Buracos profundos, trechos destruídos e caminhões quebrados às margens da estrada transformam o percurso de 600 km em uma jornada de até 20 horas. Foto: captada 

    O plano prevê:

    • Reforço no pavimento com aplicação de macadame hidráulico (técnica que utiliza pedras britadas compactadas para formar uma base resistente)
    • Regularização da plataforma da estrada
    • Recapeamento asfáltico em trechos da variante
    • Recuperação de pontos críticos afetados por erosões
    Novos contratos e licitações

    O DNIT informou que está em fase final a formalização de um novo contrato referente ao chamado lote 10 da BR-364, com expectativa de que uma nova empresa assuma o trecho em breve, ampliando as frentes de trabalho na rodovia.

    Os serviços de tapa-buraco realizados nos últimos meses são apenas paliativos e obras estruturais devem começar em maio. Foto: captada 

    Além disso, o projeto de pavimentação dos primeiros 100 km, entre Sena Madureira e a ponte do Macapá (ou 20 km após Manoel Urbano), deve ser licitado ainda em março. O segundo lote, que deve cobrir o trecho de Manoel Urbano até Feijó, está previsto para junho e julho.

    De acordo com informações divulgadas anteriormente, apenas o primeiro trecho (100 km) está orçado em aproximadamente R$ 850 milhões, e a recuperação completa da rodovia deve se estender até 2028.

    Ponte do Tarauacá: entrega prevista para maio

    Uma das obras mais aguardadas pelos usuários da BR-364 é a conclusão da ponte sobre o Rio Tarauacá, que levará o nome de Vitorino, em homenagem ao pai da vice-prefeita local. Segundo Ricardo Araújo, os serviços de prolongamento e adequação da ponte estão bastante avançados.

    “Hoje nós já estamos com as lajes praticamente prontas. Faltam apenas três vigas para concluir e liberar todo o trânsito por cima da ponte”, explicou o superintendente. A previsão é que a estrutura seja entregue até o final de maio de 2026, após ajustes técnicos que causaram atrasos, mas garantiram a segurança da obra.

    A ponte, aguardada há cerca de 16 anos entre discussões e execução, representa um marco para a mobilidade urbana e regional, beneficiando diretamente a população de Tarauacá e de toda a região.

    A obra de prolongamento de 70 metros da ponte sobre o Rio Tarauacá, realizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes do Acre (DNIT/AC). Foto: captada 

    Outra medida anunciada pelo DNIT é a aquisição de duas balanças para controlar o peso dos veículos que trafegam pela rodovia, coibindo o excesso de carga — um dos principais fatores apontados para a deterioração acelerada da pista. “Depois de quatro meses sem balança, conseguimos viabilizar duas para a BR, o que nos permitirá coibir o excesso de carga”, explicou Ricardo Araújo.

    Espera por soluções definitivas

    Enquanto as obras estruturantes não chegam, a BR-364 segue como símbolo da precariedade da infraestrutura no Acre, impondo riscos e prejuízos a quem depende dela diariamente. A rodovia é fundamental para o transporte de combustíveis, medicamentos e alimentos, e cada quilômetro restaurado representa a garantia de acesso a bens básicos e oportunidade de desenvolvimento econômico para mais de 70% da população acreana.

    A expectativa dos usuários é que as promessas de melhoria saiam do papel e que a estrada, finalmente, ofereça condições dignas de tráfego, segurança e fluidez para quem precisa percorrer os mais de 600 quilômetros que ligam as duas principais cidades do estado.